Drashá Shemini 5776

  

A Parashá Semini inicia referindo-se ao número 8. No oitavo dia, se iniciam os serviços, no Tabernáculo,  e ocorre o ápice da inauguração: a revelação da glória de D’us. 

As festividades vêm num crescendo: a realização de sacrifícios por Aarão e seus filhos,  a benção do povo, a entrada de Moshe e Aarão na Tenda e, ao saírem, a revelação da Glória de D’us,  o clímax do acontecimento.   Os filhos mais velhos de Aarão, Nadav e Avihu, ao queimarem incenso de modo indevido e não autorizado diante de D’us (esh zará), são consumidos por um fogo vindo de diante de D’us e ambos morrem diante de D’us.

Os sábios levantam muitas hipóteses para esta súbita e drástica eliminação: embriaguez; entraram no Santo dos Santos, aproximando-se mais do que deviam diante deD’us;  iniciativa própria sem consulta prévia a Moshe ou Aarão;  intoxicação; vestimentos inadequados; não se tinham purificado; não eram casados;  tinham desejado a morte de Moshe e de Aarão, poisestavam impacientes para assumirem a liderança. Tinham cometido outro pecado anteriormente, quando ao subirem ao Monte Sinai, por ocasião da outorga da Torá, junto com os 70 anciãos, e tinham visto D’us (Êxodo 24:10), e ao vê-Lo comeram e beberam (Êxodo 24:11).

A revelação da Gloria de D’us impõe regras para que isso aconteça, limites para o próprio ser humano devido à sua natureza, já que D’us não precisa de regras. Cada um tem sua própria capacidade de perceber, tolerar e interagir com D’us e na revelação e manifestação de Sua Glória.

A atitude cheia de entusiasmo e de paixão religiosa exibidas por Nadav e Avihu - segundo o Rabino Jonathan Sacks (1) – demonstra descompasso na forma de se vera exteriorização e a interiorização da relação com D’us.  Supuseram-se poder usufruir de uma intimidade com D’us, sem que ambos cultivassem recipiente interno adequado para uma relação mais autêntica e verdadeira entre sagrado e profano, puro e impuro.  

 Segundo o Rabino Sacks, entusiasta é aquele indivíduo cheio de paixão religiosa que age sentindo-se movido por inspiração Divina, desafiando limites e convenções. São santos, mas perigosos também, pois expressam grande independência de devoção (Sacks apud David Hume). É por isso que o ato de trazer fogo não autorizado ao Tabernáculo poderia se transformar de um pequeno erro em um imenso problema, instigando extremismo, fanatismo e, sobretudo,  exacerbação da auto-importância, como foi demonstrado.

Mencionada na mesma parashá, as leis dietéticas - Kasherut -   estabelecem limites para o que se come, associando-se também aos conceitos de puro e impuro, em instancia mais elevada,  devido ao processo de se considerar nosso corpo, um templo sagrado (internalização).  Trata-se de um código, estatutos denominados “chok”  ou “chukim”, que situa-se além da lógica. Porém, para compreendê-los segundo nossa razão humana, pergunta-se qual a mensagem espiritual da Kasherut.

 Na época bíblica, os hebreus se conectavam com D’us, escolhendo o que comer. Na ótica de uma sociedade agropastoril, o alimento seria a forma de conexão entre a terra (Adamá) e o Homem (Adam), acreditando-se que o que ingerimos é santo.  Maimônides, filósofo e médico medieval, sugere que a ingestão de alimentos segundo a Kasherut é baseada em princípios nutricionais para se manter a saúde e o vigor do corpo considerado como recipiente sagrado.  Sforno e Nachmanides, comentaristas medievais,  vêem a Kasherut como proteção da saúde espiritual do povo de Israel, separação do povo de Israel dos demais povos e como uma forma de se ensinar a compaixão e a justiça para com os seres viventes.  Em todas as épocas, permanece o  conceito de que a Kasherut é o elo de preservação do povo judeu e de sua união.

Sua vinculação ao conceito de pureza-impureza é explicado pelo Rabino Noson Weisz (2). Para ele,  o conceito de “tamê” está associado à total impermeabilidade à Luz ou Emanação Divina.   O conceito de Tahor (pureza) é a permeabilidade à Luz Divina.

Segundo Weisz, o Universo foi criado como uma composição de entre o que é  e o que não é permeável à Luz Divina. Se fosse totalmente permeável, seria sobrepujado pela própria Luz e seria incapaz de separar-se de D’us. Se fosse totalmente impermeável, não sobreviveria, pois para que exista, a Criação necessita de contínuo influxo de energia fresca (Luz Divina). Por isso, há um meio termo para sua existência: separar-se fisicamente, mas coma possibilidade de se conectar espiritualmente com D’us através da livre escolha, criando-se uma dicotomiaTame x Tahor, pois há  necessidade de restrição à constante exposição à Emanação Divina.

A Kasherut se associa a uma das alternativas de se conectar com a Presença Divina, ao trazê-La para o nível do concreto, do material. O próposito desses preceitos é transformar o concreto, o físico em puro, permeável à Luz Divina. O alimento tamê associa-se a uma escolha de separação de D’us (impermeabilizar a Luz Divina) e o alimento Tahor a uma conexão com D’us. Ao se ingerir alimentos proibidos, gera-se uma energia vital vinculada ao conceito de Tame (impenetrabilidade ou impermeabilidade à Luz Divina) e mesmo que tente canalizar a energia vital no cumprimento das mitzvot positivas, não se obterá sucesso. O contrário também ocorre. Ao se ingerir alimentos puros,  permite-se e aumenta-se a Divina Presença e o mundo se purifica. Consegue-se apreciar a sabedoria da Torá.

Através do alimento, obtem-se energia para os processos corporais vitais. Somos o que comemos resultado de livre escolha e reveladora de nosso modo de vida. O que ingerimosse torna parte de nós, não apenas biologica, mas espiritualmente, pois incorporamos a natureza do alimento ingerido. No dia-a-dia, é constante lembrete de relação pessoal com D’us e que a espiritualidade abrange todos os setores práticos da vida.        

 A Kasherut, sendo uma forma de disciplina espiritual ao impor limites e regras, ao povo judeu,  transmite critérios rigorosos de alimentação, considerações sobre o impacto da alimentação sobre as dimensões corporal, espiritual,  social e ambientale sobre o que é apto (fit - casher). Na parashá Re’e, estabelece que alimentação proibida é parte do caminho do povo de Israel para a santidade (Deuteronômio 14:7,8,10).

Referências
1. Sacks J.  The Dangers of Enthusiasm. In: http://www.aish.com/tp/i/sacks/The-Dangers-of-Enthusiasm.html
2. Weisz N. The Kosher Spirit. In: http://www.aish.com/tp/i/m/48932807.html