Tu B’ShvaT

Rabino Arthur Waskow*

Quem poderia imaginar que um grupo de místicos iria escolher um dia como o da entrega das declarações do Imposto de Renda para fazer um festival comemorativo do renascimento de Deus?

Pois foi exatamente isto que um grupo de Cabalistas, em Safed, fez no século XVI. Foi quando eles recriaram o Tu B'Shvat.

d:/imagens/tu b'shvat

O Tu B'Shvat, a lua cheia no meio do inverno, foi um festival importante na época do Templo, no calendário dos dízimos. Ele assinalava o final do “ano fiscal” para as plantas. Para os frutos que nasciam antes dessa data os impostos eram devidos no ano anterior, para os que nasciam depois os impostos eram pagos no ano seguinte.

O Talmud denomina esta data como o “Ano Novo das Árvores.”

Mas, para os Cabalistas, ele era também o Ano Novo da Árvore da Vida, da própria essência de Deus, a Árvore cujas Raízes estão no Céu e cujos Frutos são o próprio Mundo e todas as criaturas de Deus. Para celebrar o reacordar das plantas, e particularmente o reacordar da Árvore da Vida, bem no meio do inverno, eles criaram um Seder místico que honra os Quatro Mundos: Ação, Relação, Conhecimento e Ser. Esses Quatro Mundos eram representados por quatro taças de vinho e quatro pratos com nozes e frutas, iniciando a refeição pelas frutas menos permeáveis e terminando-a com frutas quase etéreas, uma vez que o Mundo do Ser é totalmente espírito.

O significado simbólico desse Seder atinge profundidades ainda maiores: ecos da geração e regeneração nos mundos das plantas e dos animais, os ciclos de vida das plantas, a geração de alimentos que não requerem mortes, nem mesmo de plantas; nossas plantas, em vida, produzem frutos e sementes em tal profusão que podem alimentar até as gerações futuras.

As quatro taças de vinho eram de cor vermelha, rosa escura, rosa clara e branca, ecoando a geração e regeneração dos animais, inclusive a raça humana. Isso porque o vermelho e o branco, na tradição antiga, eram considerados as cores da geração. Sua mistura representava, para eles, a mistura de sangue e sêmen que, para os antigos, denotava a procriação.

Mas por qual razão os Cabalistas de Safed relacionavam esses impulsos primitivos de abundância com a data do dízimo das frutas? Porque eles acreditavam que a shefa, a abundância, criada por Deus, continuaria a existir apenas se uma pequena parte fosse devolvida a Deus, o possuidor de toda a Terra e de toda a abundância.

E quem eram os coletores de impostos de Deus? Os pobres, inclusive os sacerdotes e mestres que não possuíam terras, e cuja missão era ensinar e celebrar.

Estes místicos observaram o grande significado das oferendas. Para eles, comer sem antes abençoar as árvores era roubo; comer sem compartilhar os alimentos com outros era roubo. Pior ainda: sem abençoar e sem compartilhar, o fluxo da abundância iria murchar e cessar.

O Tu B'Shvat está novamente próximo. As árvores do mundo se encontram ameaçadas, os pobres do mundo passam necessidades, os professores e celebrantes estão em risco.

Faça as suas oferendas! Ou o fluxo da abundância se destruirá com os atritos de sua própria produção, e a Essência de Deus sofrerá com a nossa falta de compaixão. 

---

O Rabino Arthur Waskow, fundador do Shalom Center, é um importante rabino ligado ao Movimento Renovador.